Um grito no olhar

um grito de socorroHouve sim um dia, foi mais precisamente em um sábado. Eu estava ali para começar a escovar meus cabelos, tinha tido uma semana cheia, cheia de altos e baixos, estava suuuuper sensível.

Naquela manhã acordei e me levantei da cama por volta das 7:00hs, pensando no porquê eu estava levantando tão cedo, já que era sábado. Deixei o maridon e o Tutu ainda dormindo e fui para a sala, de pijama e com a cara mais inchada possível, porque comigo é assim, se eu chorar, 50 mil dias depois meu rosto ainda estará lá exibindo os traços do choro, incrivel!

Deitei no sofá, abri meu celular como de costume entrei no Pinterest e procurei uma mensagem para dar bom dia nas redes sociais. Sempre procuro por lá e é incrível como funciona! A primeira mensagem que li e que me tocou foi: “O pouco com Deus é muito”.

Peguei a foto, publiquei no instagram e no Facebook, naveguei  pelo Snapchat, olhei e-mails, tomei café e fui assistir Grey’s Anatomy.

Aproveitei o silêncio matinal e fui tomar um banho, naquele dia eu estava totalmente disposta a domar meu cabelo, que estava gritando por socorro há meses.

Tomei um bom banho, com a Pi me chamando, mas foi um bom banho. Saí e coloquei meu pijama novamente, entrei no quarto e vi que estava somente o tutu dormindo, peguei o secador rezando pra que ele não acordasse antes de eu terminar a missão.

Fui para a sala, peguei a extensão do fogão, que é a única que entra o pino do secador, peguei meu espelho pequeno e me ajeitei no sofá.

Foi quando me olhei no espelho para ajeitar meu cabelo que notei o tipo de pessoa que eu tinha me tornado. Foi exatamente ali!

Não que não tivesse brilho nos meus olhos, pois definitivamente tinha, mas por trás daquele brilho todo, ali bem no fundo, havia uma pessoa, uma pessoa que estava segurando grades grossas, gritando por socorro. Ela estava totalmente irreconhecível, cabelos esvoaçantes, unhas com esmaltes lascados e pontas afiadas, de tanto quebrar no dia a dia. Roupas velhas, manchadas, com traços de desleixo, rosto inchado, trazendo pequenas rugas e marcas que não tinham o direito legal de estar ali, havia protuberâncias em seu corpo que são marcas de uma descontrolada compulsão por comidas. Tudo isso revelavam que tinha alguma coisa errada com ela, que no fundo nem tudo eram somente as rosas, ela parecia muito com espinhos. Esta pessoa parecia um pesadelo, ela suplicava ajuda em seus gritos de silêncio, seus olhos inchados revelam seu desespero. E como se não pudesse haver nada mais agonizante do que aquele conjunto todo, descobri que aquela era Eu!!

Tive vontade de chorar, chorar por ter me deixado tão de lado, tão abandonada, tão a mercê dos caprichos dos outros, mas eu não tive lágrimas para chorar, afinal aquela semana já tinha se ocupado de usar todo o meu estoque de lágrimas, era humanamente impossível sair mais alguma gota.

Não que a vida que eu levo não seja a que eu queria, pois eu sempre sonhei em ter uma familía, mas o meu Eu não é mais o mesmo, o meu Eu é modificado e me choquei ao vê-lo.

Tive vontade de gritar, aqueles gritos agudos e incessantes de terror, mas se eu o fizesse eu acordaria meu filho e aí já era escovar os cabelos.

E então eu gritei mais uma vez em silêncio, foi um daqueles gritos de: “Socorro, o que estou fazendo comigo?” E foi neste ponto que tomei consciência do que estava me tornando, do que eu estou fazendo comigo.

Senti uma enorme ponta de culpa, culpa por colocar tudo e todos acima dos meus próprios desejos, culpa por ir enchendo o meu copo da paciência, aquele que você vai enchendo e quando se dá conta já transbordou. Culpa por estar em uma vida que eu sempre desejei mas que hoje ao vive-la, vejo que sinto falta de mim, de mim antes desta vida e por fim, culpa por me sentir tão culpada.

Senti uma profunda dor no fundo da alma, daquelas que parece que nossa alma sai do corpo de tão frio que ficamos por dentro, é como se um inverno nos atingisse no verão. Uma dor em saber que eu tinha muita culpa em ter ido buscar acalento e conforto na comida, pois ela era a única forma de sentir prazer sem depender de nada e nem de ninguém e foi a partir deste pensamento que descobri, como que um estalo, que a forma com que eu vinha comendo estava descontrolada e me afetou emocionalmente. O açúcar que eu comia me dava um prazer enorme por um breve momento mas me deixava extremamente irritada logo em seguida, o que estava me transformando em uma viciada, uma pessoa comedora compulsiva.

Tive nojo, muito nojo de mim, pois isto estava me transformando em uma pessoa com vícios lícitos, e que estavam atingindo diretamente meu corpo, eu não tinha mais pique, fôlego, minha tolerância era horrível, a irritabilidade e sensibilidade eram extremas e chocantes e eu estava definitivamente acima do meu peso, era como se eu me olhasse no espelho e visse uma pessoa magra e feliz quando eu estava comendo, e quando não, eu me via uma pessoa velha, extremamente gorda e infeliz, coisas que eu nunca tinha experimentado antes, me olhar desta forma neste dia foi um pânico!

Eu creio que tudo isso só aconteceu, pois lentamente eu me deixei de lado, me doei muito em prol da família, da casa e do marido. Eu também não resolvia meus problemas imediatamente, sempre ia colocando eles em um copo e enchia esse copo de comida. Essa comida se transformou em gordura e isso afetou o meu corpo rapidamente.

Não tinha mais tempo de praticar coisas que sentia um imenso prazer, como ler, caminhar e ir ao parque sozinha, apenas para deitar na grama e absorver o Sol. Eu sempre entendi que depois que tivesse uma família isso diminuiria, mas nunca pensei que eu abriria mão destes pequenos prazeres para fazer outras que satisfariam ou outros e que isso me deixaria um pouco triste. É tudo muito contraditório.

E tudo isso é tão maluco, pois eu me sinto bem, me sinto feliz e me deixei levar em coisas que julguei pequenas, pequenas comidas, pequenos prazeres e olha só onde cheguei.

Este foi o meu primeiro choque de realidade e eu espero sinceramente de me lembrar desta minha figura ao espelho sempre que for me alimentar por compulsão.

Espero que Deus me dê muita sabedoria e paciência para enfrentar o que está por vi, porque todos ao meu redor estão acostumados a me ver por ali sempre, e eu preciso dar corda para que eu também atinja meus sonhos e objetivos, pois aquela imagem do espelho foi profunda demais e eu não quero mais vê-la.

Peço que eu tenha maturidade para lidar com as crises que virão, pois eu creio que essa compulsão seja como um vicío, que quando ficamos longe, sentimos choque!

E que eu entenda que tudo bem ser eu novamente, que não vou deixar de amar, de cuidar ou de ter tempos de qualidade com a minha família, sempre que eu fizer algo que me dê fazer, como ir ao parque, fazer uma leitura ou até mesmo praticar o nadismo em silêncio.

Sei que a caminhada é dificil e muitas vezes solitária, mas conto com a fé e a força de vontade! Tenho em mente que é um dia após o outro e que cada dia é uma vitória enorme.

Peço que vocês se olhem no espelho e se por acaso encontrarem alguém pedindo socorro, ajude-a, pois você estará se salvando também e aquele ditado que diz ”Ame-se primeiro e depois ame ao outro” é real e é verídico!

Se olhem e não se abandonem, se perdoem, deem uma nova chance de mudar o que não está legal. Não seja aquilo que não te deixa feliz. Tenham força, foco, fé e acima de tudo amor próprio, pois sei que podemos superar mais um obstáculo!

Bjos e até mais,

Juliana Campos

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